A Apple e o Google confirmaram recentemente um dos acordos mais impactantes do ano no setor de tecnologia, sinalizando uma mudança drástica na estratégia de inteligência artificial da fabricante do iPhone. Em um comunicado conjunto, as empresas anunciaram uma colaboração plurianual que permitirá à Apple utilizar os modelos Gemini e a infraestrutura de nuvem do Google para alimentar a próxima geração de seus recursos de IA. Essa movimentação visa acelerar a evolução da Siri, que passará a operar, em futuras atualizações, diretamente nos servidores do Google.
Mudança de infraestrutura e o uso de TPUs
Segundo informações de bastidores reportadas por Mark Gurman, da Bloomberg, a Apple planeja hospedar o futuro chatbot da Siri — previsto para o iOS 27 — nos servidores do Google. O diferencial aqui é o uso das Unidades de Processamento de Tensor (TPUs), chips desenvolvidos especificamente pelo Google para lidar com cargas de trabalho massivas de inteligência artificial. Isso representa um desvio significativo da filosofia habitual da Apple, que historicamente priorizou o processamento no dispositivo ou em sua infraestrutura proprietária rigorosamente controlada.
Para o curto prazo, no entanto, a estratégia permanece híbrida. As melhorias da Siri esperadas para o iOS 26.4 ainda devem rodar nos servidores do próprio “Private Cloud Compute” da Apple, que utilizam chips de Mac de alto desempenho. A necessidade de migrar para a nuvem do Google surge com a introdução de modelos de linguagem mais complexos, internamente chamados de “Apple Foundation Models versão 11”. A capacidade exigida por esses novos modelos, comparáveis aos Gemini mais avançados, excede a praticidade da infraestrutura atual da Apple, exigindo o “poder de fogo” especializado que apenas o Google possui em escala.
Privacidade e controle de dados
Apesar da dependência do hardware de um rival, a Apple sustenta que a privacidade do usuário permanece intacta. O acordo prevê que, embora o processamento ocorra em servidores do Google, a empresa de Mountain View não terá acesso aos dados dos usuários no sentido convencional. A Apple continua controlando as chaves de criptografia e as políticas de manuseio de dados, utilizando infraestruturas de terceiros — algo que já faz com partes do iCloud — apenas como base operacional. O sistema “Private Cloud Compute” continua sendo o pilar central da promessa de que os dados são processados temporariamente e nunca retidos, nem mesmo pela própria Apple.
Os bastidores da decisão e mudanças na liderança
A decisão de firmar essa parceria não aconteceu no vácuo. A Apple enfrentava pressão crescente de investidores e consumidores devido aos atrasos na reformulação da Siri, enquanto concorrentes avançavam rapidamente no campo da IA generativa. Relatórios internos apontavam para frustrações com bugs e dificuldades de desenvolvimento que adiavam o lançamento de um assistente verdadeiramente capaz de entender contextos complexos. Ao adotar a base do Gemini, a Apple consegue pular etapas, garantindo performance e confiabilidade sem precisar reconstruir toda a tecnologia do zero.
Essa turbulência interna também se refletiu na gestão. A empresa realizou mudanças importantes em sua equipe executiva, contratando Amar Subramanya como vice-presidente de inteligência artificial. Ele substituiu John Giannandrea, que deixou o cargo após liderar a estratégia de IA da empresa desde 2018, indicando uma reorientação de prioridades em Cupertino.
Escrutínio regulatório no horizonte
Embora a parceria prometa benefícios técnicos, ela também atrai olhares preocupados de reguladores antitruste. Apple e Google já estão sob o microscópio das autoridades devido ao seu acordo de longa data sobre mecanismos de busca, onde o Google paga para ser a opção padrão no iPhone — uma prática recentemente questionada em decisões judiciais sobre monopólio. Aprofundar os laços entre duas das maiores empresas de tecnologia do mundo através dessa nova colaboração em IA pode gerar novas investigações sobre a concentração de poder no setor.
